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Gramática · C2

Os tempos literários

por Alessio · professor de italiano para estrangeiros, mestrado ITALS

gramática italiana: tempi letterari
Levantou-se e olhou o lago: a página tem os seus próprios tempos.

A narrativa italiana tem a sua própria mecânica de tempos: o passato remoto leva a ação (uscì, vide, disse), o imperfetto estende o cenário, o trapassato remoto (quando ebbe finito, partì) vive só depois de quando e appena. Ler os clássicos é vê-la a trabalhar.

  • 10min leitura
  • 17min exercícios
  • C2nível

O que aprendes

  • passato remoto, imperfetto, trapassato prossimo, trapassato remoto
  • Quando se usam os tempos literários
  • Os erros mais frequentes
  • Imperfetto narrativo, trapassato remoto e formas dos clássicos
  • Léxico: la narrativa storica

O italiano e o português lado a lado

O pretérito perfeito simples corresponde ao passato remoto, e o mais-que-perfeito ao trapassato remoto: appena ebbe finito, uscì. Em italiano esta forma sobrevive na literatura.

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A linha do tempo
trapassato remotopassato remotopresenteAGORA

O trapassato remoto vem antes do passato remoto, e só depois de appena ou dopo che: appena ebbe finito, uscì.

25 leituras graduadas e um dicionário de 4.000 palavrasApp Store★★★★★(22)de Alessio, professor desde 2018Continua na app →

O vocabulário desta página

Arrasta cada palavra italiana até à definição certa, ou toca na palavra e depois na caixa.

O motor do relato

TempoPapelNa página
passato remotoos acontecimentos encadeadossi alzò, aprì la finestra, guardò il lago
imperfettoo cenário e os pensamentosil lago era immobile, pensava a sua madre
trapassato prossimoo antes já conhecidoaveva lasciato il paese dieci anni prima
trapassato remotoo antes imediato, depois de quando/appenaquando ebbe letto la lettera, la bruciò
O presente histórico é a outra mudança da narração: Cesare passa il Rubicone, e o leitor está lá. Muitos romances contemporâneos alternam remoto e presente para regular a distância à cena.

Manzoni em miniatura

FraseMecânica
don Abbondio tornava tranquillo, quando vide i bravicenário no imperfetto, acontecimento no remoto
appena li ebbe visti, si fermòtrapassato remoto: logo antes
aveva sempre evitato i guai: quella sera non potétrapassato prossimo para o hábito anterior

O imperfetto narrativo

Nos jornais e nas biografias o imperfetto conta também factos pontuais e acabados, que o bom senso poria no passato remoto: nel 1321 Dante moriva a Ravenna. Não é um erro, é uma escolha de realização: o facto deixa de correr e congela como um fotograma.

FraseCom o remotoEfeito
pochi minuti dopo, il ladro veniva arrestatofu arrestatoa notícia como uma cena em câmara lenta
nel 1321 Dante moriva a Ravenna, in esiliomorìtom solene, de lápide
due giorni più tardi la nave lasciava il portolasciòsuspense: o leitor espera a continuação
O imperfetto narrativo reconhece-se por uma indicação de tempo precisa (alle otto, il giorno dopo, nel 1321), que o imperfetto de cenário nunca tem. Funciona na crónica e no ensaio; numa composição de exame, se ficar a dúvida, o passato remoto não falha.

O trapassato remoto e os seus substitutos

O trapassato remoto é o tempo mais raro da língua: vive só nas subordinadas de tempo, quando a principal está no passato remoto. Faz lembrar o mais-que-perfeito simples português (fizera, chegara): correto, elegante e quase só escrito. A prosa de hoje evita-o muitas vezes com formas mais leves, que dizem o mesmo:

FormaExemploRegisto
appena / quando + trapassato remotoappena ebbe firmato, uscìliterário, sempre correto
particípio absolutofirmato il contratto, uscìescrito, muito comum
dopo + infinitivo compostodopo aver firmato, uscìneutro, serve em todo o lado
appena + passato remotoappena firmò, uscìcorrente, já aceite
particípio + che + ebbefirmato che ebbe, uscìantiquado: lê-se em Manzoni e em Collodi

As formas dos clássicos, para reconhecer

Quem lê o italiano do século XIX encontra formas que hoje ninguém escreve, mas que é preciso perceber logo, como um leitor português se arranja com vosmecê ou asinha. Não se aprendem para usar, aprendem-se para não tropeçar.

No textoHojeO que acontece
avea, dicea, splendeaaveva, diceva, splendevao imperfetto perde o v
saria, avriasarebbe, avrebbeo condicional poético em -ia
fiasaràum velho futuro de essere
andaro, cantaroandarono, cantaronoo passato remoto encurtado
ei, e’eglio sujeito poético: ei fu
dicesi, trovossisi dice, si trovòo pronome pendurado no fim do verbo, como no português diz-se
pria, ognora, alfineprima, sempre, alla fineadvérbios da língua poética

Uma destas formas sobreviveu nos letreiros: affittasi (aluga-se), vendesi (vende-se), cercasi (procura-se). O que em português é a norma, em italiano é um fóssil dos clássicos pendurado numa varanda. O próprio Manzoni, entre a primeira edição de I promessi sposi (1827) e a definitiva (1840), foi a Florença «enxaguar a roupa no Arno»: reescreveu o romance na língua viva dos florentinos cultos, e muitas formas literárias deram lugar às do uso.

Os erros mais frequentes

  • quando aveva finito la lettera, la bruciò → quando ebbe finito la lettera, la bruciò (depois de quando + remoto: trapassato remoto)
  • si alzava, apriva la porta e uscì (catena di eventi) → si alzò, aprì la porta e uscì (os factos encadeados levam o remoto)
  • il paese fu povero e la gente partì ogni anno → il paese era povero e la gente partiva ogni anno (cenário e hábito)
  • dopo che ebbe finito, è uscito → dopo che ebbe finito, uscì (o trapassato remoto quer um passato remoto na principal)
  • la sera prima ebbe detto che sarebbe venuto → la sera prima aveva detto che sarebbe venuto (o trapassato remoto não vive numa oração principal)
  • affittasi appartamenti → affittansi appartamenti, ou melhor si affittano appartamenti (no plural o verbo vai para o plural, como em «alugam-se apartamentos»)

Os tempos literários nos clássicos

Três passagens em que se vê a máquina dos tempos a trabalhar.

«Il curato, voltata la stradetta, e dirizzando, com’era solito, lo sguardo al tabernacolo, vide una cosa che non s’aspettava, e che non avrebbe voluto vedere.»

«O padre, dobrada a esquina da ruela, e erguendo, como era seu costume, o olhar para o nicho, viu uma coisa que não esperava, e que não teria querido ver.»

Numa só frase está quase toda a gramática desta página. O particípio absoluto e o gerúndio preparam, o imperfetto era solito diz o hábito, o remoto vide é o único acontecimento, e o condicional composto comenta do ponto de vista de dom Abbondio. É aqui que começa a história dos bravos.

Alessandro Manzoni, I promessi sposi, cap. I (1840)
«Finito ch’ebbe di leggere, stette lì alquanto a pensare»

«Assim que acabou de ler, ficou ali algum tempo a pensar»

A forma antiga do trapassato remoto: particípio, che, ebbe. Hoje dir-se-ia quando ebbe finito di leggere, ou simplesmente finito di leggere. Stette é o passato remoto de stare, e alquanto quer dizer «algum tempo».

Alessandro Manzoni, I promessi sposi, cap. IX (1840)
«Silvia, rimembri ancora / quel tempo della tua vita mortale, / quando beltà splendea / negli occhi tuoi ridenti e fuggitivi, / e tu, lieta e pensosa, il limitare / di gioventù salivi?»

«Sílvia, ainda te lembras daquele tempo da tua vida mortal, quando a beleza resplandecia nos teus olhos risonhos e fugidios, e tu, alegre e pensativa, subias o limiar da juventude?»

Dois imperfetti para a memória: splendea, ou seja splendeva sem o v, e salivi. Não contam factos, seguram uma imagem. Também o primeiro verbo tem história: na edição de 1831 Leopardi escreveu sovvienti, na de 1835 rammenti; rimembri é a sua última escolha.

Giacomo Leopardi, Canti, «A Silvia», vv. 1-6 (edição definitiva, 1845)
As montanhas a pique sobre o lago de Como, no braço de Lecco
Quel ramo del lago di Como, che volge a mezzogiorno…

Exercícios

Cinco exercícios por ordem de dificuldade. Os últimos retomam o que já viste.

  1. 01 Il trapassato remoto

    Si usa solo dopo quando, dopo che, appena con un passato remoto. Completa.

    1. Appena (lui / finire) di parlare, uscì.
    2. Dopo che (loro / arrivare) , cominciò la cerimonia.
    3. Quando (io / leggere) la lettera, capii tutto.
    4. Appena (noi / uscire) , cominciò a piovere.
    5. Dopo che (lei / partire) , la casa parve vuota.
    6. Quando (loro / mangiare) , si alzarono da tavola.

  2. 02 Il congiuntivo nei testi antichi

    Riscrivi in italiano d’oggi, mantenendo il senso.

    1. Ch’io vada o resti, poco importa. →
    2. Volle che si facesse silenzio. →
    3. Temeva non giungesse in tempo. →
    4. Fosse anche vero, non cambierebbe nulla. →
    5. Chiunque ei sia, lo riceva. →
    6. Pria che il sole tramonti… →

  3. 03 Il presente storico

    Riscrivi il passo al presente storico, come si fa nelle cronache e nei saggi.

    1. Nel 1861 l’Italia si unì. →
    2. Dante scrisse la Commedia in esilio. →
    3. Nel 1348 la peste arrivò a Firenze. →
    4. Galileo pubblicò il Sidereus Nuncius nel 1610. →
    5. Cavour morì poco dopo. →
    6. L’assemblea approvò la legge. →

  4. 04 Riconoscere il tempo

    Scrivi il nome del tempo verbale.

    1. ebbe detto →
    2. disse →
    3. aveva detto →
    4. avrebbe detto →
    5. dicesse →
    6. avesse detto →

  5. 05 La pagina di romanzo

    Completa con i tempi della narrazione letteraria.

    Revisão C1: passato remoto · concordanza dei tempi

    1. Quando (lui / entrare) nella stanza, tutti (tacere) .
    2. Appena (sedersi) , (cominciare) a parlare.
    3. Nessuno (osare) interromperlo, benché molti (dissentire) .
    4. Disse che l’indomani (partire) per non tornare.
    5. Solo più tardi (loro / capire) che cosa (accadere) davvero.
    6. Ma allora (essere) troppo tardi.

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O túmulo de Dante em Ravena, um pequeno templo branco junto a um muro de tijolo
Dante morì in esilio a Ravenna nel 1321.

Mais uma vez

Encena como um narrador:

  1. La sera calda; Renzo fino al ponte.
  2. Appena il biglietto, lo strappò.
  3. il paese da ragazzo, e nessuno lo ricordava.
  4. La porta di colpo: tutti .

Perguntas frequentes

Como se usam os tempos literários em italiano?
A narrativa italiana tem a sua própria mecânica de tempos: o passato remoto leva a ação (uscì, vide, disse), o imperfetto estende o cenário, o trapassato remoto (quando ebbe finito, partì) vive só depois de quando e appena. Ler os clássicos é vê-la a trabalhar.
Quais são os erros mais frequentes?
Os erros que mais oiço nas aulas:
  • quando aveva finito la lettera, la bruciò → quando ebbe finito la lettera, la bruciò (depois de quando + remoto: trapassato remoto)
  • si alzava, apriva la porta e uscì (catena di eventi) → si alzò, aprì la porta e uscì (os factos encadeados levam o remoto)
  • il paese fu povero e la gente partì ogni anno → il paese era povero e la gente partiva ogni anno (cenário e hábito)
  • dopo che ebbe finito, è uscito → dopo che ebbe finito, uscì (o trapassato remoto quer um passato remoto na principal)
  • la sera prima ebbe detto che sarebbe venuto → la sera prima aveva detto che sarebbe venuto (o trapassato remoto não vive numa oração principal)
  • affittasi appartamenti → affittansi appartamenti, ou melhor si affittano appartamenti (no plural o verbo vai para o plural, como em «alugam-se apartamentos»)
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O trapassato remoto ainda se usa?
Na escrita sim, mas pouco, e na fala quase nunca. Tem um único lugar: a subordinada de tempo com quando, appena, dopo che, se a principal está no passato remoto (appena ebbe finito, uscì). Muitas vezes é substituído pelo particípio (finito il lavoro, uscì) ou por dopo aver + particípio. Bem usado, fica bem num texto C2; numa oração principal (ebbe detto), é um erro.
«Splendea», «vedea», «avea»: é o mesmo -ia do português «vivia»?
Quase: o imperfeito português dos verbos em -er e -ir faz-se em «-ia» («vivia», «tinha», «via»), e o italiano antigo e poético em -ea, -ia (avea, credea, vivea). Os dois vêm do latim -ebat, -iebat; o italiano moderno acrescentou um v (aveva, viveva). Quem lê Leopardi («quando beltà splendea») reconhece a forma antiga.
O presente histórico existe em português?
Existe e funciona igual: nel 1492 Colombo scopre l’America, «em 1492 Colombo descobre a América». Em biografias, livros de história e jornais o presente aproxima a cena. O passato remoto mantém-na à distância. Escolher entre os dois é questão de estilo, e os dois cabem no mesmo parágrafo.
«Dante nasceu»: «nacque» ou «è nato»?
Os dois: Dante nacque a Firenze nel 1265 é a forma clássica; Dante è nato a Firenze é mais atual e vê-se em enciclopédias. Para pessoas vivas só há o passato prossimo: mia nonna è nata a Bari. O português usa «nasceu» em todos os casos, por isso a escolha é nova. O remoto marca distância, não que o facto valha menos.
Porque tantos romances recentes usam o passato prossimo?
Porque aproxima o narrador do leitor: o remoto cria distância, o prossimo proximidade. Um romance em primeira pessoa que soa a relato oral costuma escolher o prossimo. Os dois são permitidos, e a mudança de um para o outro é um recurso. Em português, o romancista tem só o perfeito simples, mas pode escolher o tom com o imperfeito e o presente.
Os tempos literários (C2): O motor do relatoO motor do relato

Fontes e método

Este capítulo nasce da prática de aula e segue o nível C2 do Quadro Europeu Comum de Referência. Para ler mais:

Alessio
Escrito e revisto por

Alessio

  • Mestrado ITALS, Università Ca’ Foscari Venezia
  • Mestrado em italiano como segunda língua, Università Giustino Fortunato (Benevento)
  • Ensina desde 2018 · 42 avaliações
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